**Perfeição e Santidade...**
“Considere o fato de que, sendo nada em nós mesmos, não podemos, sem assistência divina, realizar o menor bem ou dar o menor passo em direção ao Céu.” – Lorenzo Scupoli
A Toráh ensina que os sacerdotes de Deus, ou os “kohanim”, eram obrigados a ser “perfeitos”, sem qualquer defeito físico ou impureza que os tornasse inadequados para o serviço. Tudo a respeito dos sacerdotes – suas vestes, seu estilo de cabelo, a condição da sua pele e, especialmente, sua adesão aos passos meticulosos exigidos para oferecer o sacrifício diário (לֶחֶם אֱלֹהָיו, *lechem Elohav*, “o pão do seu Deus”) – deveria ser “sem defeito”, e qualquer desvio poderia até mesmo incorrer na pena de morte (ver Lev. 10:2; Núm. 4:15; 2 Sam. 6:6-7). Por outro lado, o que às vezes desqualificava um sacerdote para o serviço eram coisas além do seu controle, por exemplo, várias deficiências físicas como cegueira, mancar ou membros deformados (ver Lev. 21:16-21).
Refletir sobre esses requisitos levanta questões profundas sobre o significado de “perfeição” em nossas vidas, e particularmente como nós, como um povo profundamente falho, podemos ser “perfeitos”. A questão é radical e afeta como entendemos a santidade prática ou a ideia de “santificação”: devemos buscar ser pessoas perfeitas? E, se sim, como entendemos isso? Nossa espiritualidade está ligada ao perfeccionismo, ao desempenho impecável e a sempre ser e fazer o que é certo?
No Sermão do Monte, Yeshua advertiu que nossa justiça deve exceder a dos líderes religiosos de seus dias (Mat. 5:20), e prosseguiu dizendo: “sede perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial” (Mat. 5:48). Aqui observamos que a palavra grega traduzida como “perfeito” (*téleios*) pode significar “maduro” ou “plenamente desenvolvido”, mais do que moralmente sem falhas, embora, no que diz respeito à prática moral e espiritual, essa distinção não seja tão clara, especialmente se por “maduro” entendemos alguém com caráter piedoso, como o contexto da fala de Yeshua indica (ver Mat. 5:1-48). A palavra hebraica traduzida como “perfeito” (תָּמִים, *tamim*) também pode significar “completo”, mas pode transmitir a ideia de ser “íntegro”, “de todo o coração” ou até mesmo “curado” (שָׁלֵם, *shalem*). Assim, surge a pergunta: “perfeito” significa “sem falhas” ou “curado” — ou talvez ambos?
Certamente afirmamos que somente Deus é verdadeiramente perfeito (Deut. 32:4; Salmo 18:30), completamente bom (Mat. 19:17), perfeitamente justo (Salmo 145:17), totalmente santo (Isa. 6:3; Apoc. 15:4) e incomparavelmente único (Êx. 15:11; Jer. 10:6-7). Mas como podemos nos relacionar com a perfeição absoluta de Deus em meio às nossas falhas diárias e imperfeições crônicas? Como ousamos nos aproximar “para oferecer o pão de Deus” (Lev. 21:17)?
Os seguidores do SENHOR são chamados a ser uma nação de sacerdotes, um “povo escolhido”, separado para servir a Deus em santidade (Êx. 19:5-6; 1 Ped. 2:9; Lev. 11:45), mas é evidente que somos manchados, imperfeitos, cegos, mancos, necessitados e impuros... Isso é comum à condição humana: todos nós, somos quebrados, falhos e estamos no fluxo inevitável da vida que leva à morte e à corrupção (Rom. 3:23). Estamos doentes pelo pecado e incapazes de nos curar, e por isso precisamos de uma transformação radical — um “livramento de nós mesmos” — que deve vir por intervenção divina e pelo milagre do novo nascimento espiritual (João 3:3,7).
Ainda assim, neste mundo, o paradoxo permanece: somos finitos, mas ansiamos pelo eterno; estamos em constante mudança, mas ancorados na esperança; somos uma “nova criação”, mas ainda carregamos a velha natureza; fomos feitos santos, mas vivemos no meio do profano; fomos purificados, mas ainda precisamos de purificação; fomos curados, mas ainda estamos feridos; fomos redimidos por Deus, mas ainda precisamos voltar a Ele em *teshuváh* (arrependimento); morremos diariamente, mas temos vida eterna. Nosso coração deve ser um santuário divino, mas somos incapazes de fazer Deus se manifestar por nós mesmos...
A perfeição nos assombra; frequentemente confundimos o ideal com o real. Nossas visões românticas falham; nossas palavras poéticas soam como língua desconhecida; todos nós somos estrangeiros, peregrinos, em um exílio solitário. E então surge a questão: como abraçar o “já e ainda não”, o processo, os dias passageiros com seus momentos intensos e, ao mesmo tempo, comuns — dentro do contexto de uma esperança real, uma visão que cura e traz verdadeiro consolo? Como fazer as pazes com nossas imperfeições, nossa escuridão presente e nossa fome por libertação? Como visualizar a cura em meio à nossa condição quebrada?
Ironicamente, esses defeitos que nos desqualificariam como sacerdotes podem ser transformados em compaixão pelos outros, e isso nos permite nos aproximar de Deus em meio à nossa existência imperfeita... Afinal, o papel mais profundo do sacerdote é aproximar outros de Deus, e isso exige empatia e consciência das necessidades alheias. Por isso, Deus se revestiu da nossa fragilidade, das nossas enfermidades e da nossa condição caída para nos redimir em Yeshua. Como está escrito, temos um sumo sacerdote que pode se compadecer (*sympatheo*) das nossas fraquezas (Heb. 4:15).
O sacerdote da Aliança Renovada, Brit Chadasháh, é um mediador por meio da pobreza de espírito e do quebrantamento (Mat. 5:3-8). Assim como Josué, o sumo sacerdote, recebeu vestes de justiça em troca de suas roupas sujas (Zac. 3), também nós recebemos uma justiça imputada que vem por meio da fé naquele que “justifica o ímpio” (Rom. 4:5).
“Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Cor. 5:21).
Esta é uma justiça “à parte da lei, embora a lei e os profetas testifiquem dela; isto é, a justiça de Deus pela fé em Yeshua, o Messias” (Rom. 3:21-22).
Nosso gemido pela redenção completa é um dom do Espírito de Deus clamando dentro de nossos corações (Rom. 8:22-23).
Portanto, não desista; não se entregue ao desespero. Pare de se torturar e concentre-se na bondade e misericórdia de Deus para sua vida. Precisamos suportar a nós mesmos e crer na cura prometida. Como disse o apóstolo Paulo:
“Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente; não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas.” (2 Coríntios 4:16-18)
E que Deus nos ajude a caminhar em fé perfeita no Seu amor que nunca falha (Filipenses 3:14).
Shalom aleichem


