Caminhando pela Fé...
Cada um de nós foi criado por Deus com um propósito sagrado. Há uma razão profunda para o seu nascimento. Isso explica por que às vezes nos sentimos perdidos e sozinhos nesta vida. Nossa insatisfação, a ruptura que sentimos dentro de nós e ao nosso redor, nossas tristezas, sofrimentos e perdas inevitáveis, tudo isso junto, apresenta uma “mensagem” para nossas almas, um gemido profundo do coração, um anseio visceral por cura, por vida eterna, pelo céu... Deus nos criou para si mesmo, mas não encontramos paz duradoura longe dele (Eclesiastes 3:11). Ou, como disse Agostinho de Hipona: “Tu nos criaste para ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti” (Confissões). Portanto, nosso Senhor clama àqueles que estão aflitos, perturbados e com medo: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas” (Mateus 11:28-29).
Nossa porção da Torá desta semana se chama “Lekh-Lekha”, que pode ser traduzida como “volte para si mesmo”, ou seja, volte-se e reconecte-se com sua essência espiritual, sua identidade, seu coração (Lucas 15:17). Precisamos começar a jornada por aí, porque a realidade última é intensamente pessoal, estando fundamentada na essência de Deus. É dentro da consciência do nosso próprio “Eu Sou”, nossa identidade mais profunda como um ser pessoal, pensante e sensível, que somos capazes de nos relacionar com a pessoa e o coração do grande “EU SOU” do SENHOR.
Abraão é o exemplo de fé para nós; De fato, ele é chamado de “pai da fé” (Isaías 51:1-2; Romanos 4:16; Gálatas 3:29). Abrão buscou corajosamente a Deus em seu vazio, e Deus graciosamente respondeu ao clamor do seu coração. Ele deixou tudo para trás ao embarcar na jornada rumo ao reino da promessa, considerando-se escolhido para conhecer a bênção e a graça de Deus. Abrão foi capaz de andar pela fé porque parou de ouvir as vozes do ego — as partes mundanas e incrédulas de si mesmo — e, portanto, pôde ouvir a verdade de Deus.
Segundo os sábios clássicos, Abrão foi testado dez vezes ao longo de sua vida. No primeiro teste, Abraão foi instruído a “ir para uma terra que eu lhe mostrarei”, apenas para encontrá-la um lugar de fome e sofrimento. Nos próprios testes, Abraão foi instruído a “ir à terra de Moriá, ao lugar que eu lhe mostrarei”, e ali oferecer seu filho prometido, Isaque, como holocausto... Em cada caso, a tentação era a de abandonar a esperança na promessa de Deus, visto que, no momento de cada provação, Abrão não conhecia o resultado como uma conclusão inevitável. Contudo, Abrão caminhou pela fé, com temor e tremor, um temor contextualizado pela força mais profunda encontrada no amor e na presença de Deus. Abraão teve que fechar os olhos para este mundo e caminhar na escuridão da fé para ver a luz divina que transcende este reino; ele teve que “crer para ver” que a promessa de Deus era certa.
Portanto, a jornada é uma jornada de fé e de transformação interior que advém da confiança em Deus (בִּטָּחוֹן). “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei” é o chamado da teshuváh – o abandono de hábitos escravizantes que entorpecem nossa consciência – e o despertar para a vida através da fé naquilo que transcende o nosso próprio entendimento. A palavra grega para arrependimento, “metanoia” (μετάνοια), descreve bem o processo, pois significa ir além (”meta”) das categorias usuais da mente (”nous”) para crer e apreender o milagre de Deus. A fé discerne o bem invisível que opera por trás do reino das aparências. Deus é o “Pai das Luzes” que supervisiona o fluxo e refluxo da criação. Ele está sempre trabalhando para direcionar todas as coisas de acordo com seus propósitos e vontade. Esta é a “terra que eu te mostrarei”, isto é, o reino da bênção e da vida eterna.
Shalom aleichem


